• 5 de março de 2021

Justiça propicia resgate social de recuperandos

É possível realizar um sonho estando preso em regime fechado? Lindoelson de Jesus da Silva, preso há três anos, é a prova de que é possível sonhar alto e lutar por um objetivo, independente de onde está e de qual a situação em que enfrenta. Ele sempre teve uma vida difícil, cresceu sem pais e sem incentivo para estudar. Depois de preso, no Centro de Ressocialização de São José do Rio Claro (CRSJRC), deu início à realização de um grande desejo – ler e escrever.

Atualmente, com a ajuda da professora, escreve o próprio nome, faz textos simples e até lê livros dentro da cela. “Eu progredi bastante. A professora até pediu para que escrevesse um livro sobre a minha vida, contando tudo que passei e como aprendi a escrever mesmo estando preso. Mas, acho que não quero, ainda estou pensando”, explica Lindoelson, feliz ao ser declarado o orgulho da professora Vera Adriana Kissil, do primeiro ciclo.

O crime dele foi considerado bárbaro à época, homicídio com requinte de crueldade. Mas nem por isso perdeu o direito a estudar, conhecer uma nova realidade e buscar um futuro diferente para quando sair em liberdade. De acordo com o magistrado da comarca, Walter Tomaz da Costa, o conhecimento é uma forma de mudar o mundo e também as pessoas.

“Esse projeto é uma tentativa de diminuir a recalcitrância (persistência) nos crimes. Nós estamos combatendo o crime com conhecimento, com cursos profissionalizantes e cursos de artesanatos. Muitos deles já ganham dinheiro com vendas de objetos e utilizam parte da renda comprando objetos de uso pessoal. Aqueles que estudam gostam, porque é uma redescoberta do mundo”, destaca o magistrado.

Costa garante ainda que a ressocialização reflete diretamente na sociedade, pois quando um reeducando deixa o sistema penitenciário e consegue emprego imediatamente são diminuídas as chances de recair no crime. “Há a tendência de que o egresso não volte para o crime quando está trabalhando e recebe acompanhamento psicológico. Nós oferecemos oportunidades para que isso ocorra”, afirma.

Além da professora Vera, dá aula no CR Queila Junia Cruciti. Juntas reúnem 36 alunos, sendo 15 do primeiro ao quinto ano, no período matutino, e 21 do sexto ao nono ano, no período vespertino. Elas relatam que em sala uns ajudam os outros quando estão com dificuldades em alguma matéria e assim vão repassando o conhecimento. Tem aqueles que já concluíram o Ensino Médio e, por isso, não podem estudar. Esse é outro sonho que ainda terá que virar realidade – mais salas de aulas.

Além dos estudos, são oferecidos cursos de artesanato, como crochê, jogos para banheiro e para cozinha; e cursos profissionalizantes como tratamento do couro e do leite, produção de queijos, de sabão e ainda curso para cuidar da horta.

Reginaldo Campos da Silva, 32 anos, foi preso por tráfico e está prestes a ser solto. Depois de três anos retido, soma 25 cursos, entre os quais produção de material de limpeza e higiene e agrotóxico. “Quando sair quero colocar em prática tudo que aprendi aqui. Nunca imaginei que na cadeia iria aprender um ofício. Agora é só fazer lá fora também. Minha família sofreu muito quando fui preso e não quero mais sofrimento para eles. Estou na contagem regressiva para cuidar de meus três filhos e de minha mãe”, fala Reginaldo.

Atualmente, é o responsável pela horta do Centro de Ressocialização que vende tomate, pimenta, couve, alface, ervas medicinais e muito mais. Tudo que é plantando no local é utilizado para a refeição do Centro e também vendido para a população. De acordo com o diretor, Miguel Alexandre Almeida, as pessoas já conhecem o trabalho da horta e sabem que a qualidade é boa, sem agrotóxico e ainda que o valor é um pouco mais baixo que o de mercado.

Ele afirma ainda que o trabalho dignifica a pessoa e, com isso, é obrigação do Centro dar oportunidade de mudança para os recuperandos que querem mudar de vida. Somente no ano passado foram realizados 34 cursos com participação maciça dos presos.

Assim como Reginaldo e Lindoelson, os outros 51 presos acreditam que a vida fora das celas será difícil, cercada de discriminação e falta de oportunidade. Mas com a certeza de que conhecimento é para a vida toda, agarram as oportunidades que recebem com a esperança de que quando chegar a hora de sair tenham um ofício para seguir.

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

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