Jovens contam suas experiências com adoção

“Vivi com minha família biológica até os nove anos. Mas, por sofrer maus-tratos do meu padrasto, resolvi fugir de casa e procurar a ajuda de uma assistente social que conhecia. Ela me levou para morar em um lar para crianças. Foram os melhores anos da minha vida. Tive o carinho e a atenção que não tinha em casa”, contou Emerson Antunes da Silva a um grupo de pretendentes à adoção, que ouvia atentamente ao jovem, hoje com 22 anos.

O grupo faz parte de um curso que está sendo realizado pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) em parceria com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso, nos dias 10 e 11 de fevereiro, no auditório da Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de Cuiabá. O objetivo é preparar os pretendentes para as dificuldades que poderão encontrar durante o processo de adoção e desmistificar mitos sobre os traumas que as crianças possam vir a ter. Na oportunidade, os futuros pais e mães ouviram a história de jovens que viveram em lares ou foram adotados.

No caso de Emerson, não houve adoção. Por não ter conseguido a destituição familiar, uma vez que sua mãe o visitava com frequência no lar, o jovem viveu dos nove aos 18 anos no Projeto Nossa Casa, em Cuiabá. “Eu nunca me vi como um coitado. Sempre quis crescer na vida. Hoje, curso faculdade de Direito, faço estágio no Tribunal de Justiça e sou voluntário no abrigo onde vivi. E, quando for a hora, pretendo adotar três crianças”, afirma o rapaz.

Já a história de Ana Regina Rocha Bernardon foi diferente. Ela conta que foi adotada aos sete anos, depois que uma vizinha viu que a mãe biológica a maltratava e a levou para um abrigo. “Minha mãe biológica era prostituta. Ela me obrigava a beber e fumar com ela e tinha relações sexuais na minha frente. Quando me deparei com o abrigo, eu adorei. Mas o medo de ser maltratada e abandonada novamente me deixou uma criança revoltada e cheguei a ser devolvida por três casais”, conta.

Ela diz que somente quando o juiz deu a guarda definitiva para a sua mãe adotiva que ela se sentiu aliviada e segura. “Depois disso mudei da água para o vinho. Eu precisava ter certeza que era amada e que aquela era de fato a minha família. Minha mãe e meus irmãos tiveram paciência e me ajudaram muito. Sou grata a Deus por isso”, garante Ana Regina.

Para o engenheiro civil e pretendente à adoção Luis Fernando Fontanele de Souza, o curso é muito importante para quem sonha em adotar uma criança. “O curso mudou a minha visão e da minha esposa sobre a adoção. Vimos que com amor e paciência, não existem barreiras que permaneçam. Hoje me sinto mais maduro e preparado para receber uma criança”, revela.

Reginete Luiza de Almeida e o marido também tiveram a oportunidade de ouvir o depoimento dos jovens. “Fiquei emocionada com os depoimentos. Isso nos ajuda a entender melhor sobre o que eles passaram e como devemos agir. O curso é muito bom. Todo mundo que tem a intenção de adotar deveria fazer”.

Conforme explica a presidente da Ampara, Lindacir Rocha Bernardon, a associação nasceu com objetivo de dar suporte aos pretendentes à adoção. “Além de auxiliar na dor da espera, que era nosso propósito inicial, nós expandimos nossos trabalhos para todos os aspectos da adoção. Com o TJMT, fizemos a parceria do curso pré-natal da adoção, onde todos os pretendentes precisam passar, obrigatoriamente, por um curso para poderem se tornar aptos a adotar”, esclarece Lindacir.

A presidente da Ampara conta ainda que o grupo reflexivo constitui em uma reunião mensal que é feita com os pretendentes já habilitados, com o intuito de reforçar os assuntos inerentes à adoção e colaborar na ansiedade da espera. É uma gestão coletiva dos pretendentes.

A desembargadora Cleuci Terezinha Chagas, que participou do encontro representando a Corregedoria-Geral da Justiça, também falou sobre a importância da parceria. “Quanto mais preparados estiverem os pretendentes, melhores serão as chances das adoções darem certo. Toda adoção que restar frustrada é frustrante também para o Judiciário, pois há todo um aparelhamento na preparação dos casais e crianças”, pontua a desembargadora.

Continuação – Além do Grupo Reflexivo o curso também promoverá, hoje à noite (11 de fevereiro), um grupo de pós-adoção. Esse encontro é uma reunião mensal com as famílias que já acolheram as crianças ou adolescentes. É uma troca de experiência para falar sobre as dificuldades e problemas que ocorrem normalmente em uma família, tudo acompanhado por uma psicóloga.

Mariana Vianna-TJMT

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