• 22 de abril de 2021

Direito a felicidade

O brasileiro esqueceu que tem direito à felicidade. E não é por culpa apenas do PT. Há no pais uma inclinação intelectual para o que é ilusório, o terrível, o perverso, uma tendência para viver em crise, uma excitação permanente para escolher caminhos que aparentam serem os mais fáceis, quando na verdade são os mais difíceis. Vejamos o caso dos golpes de Estado: a República nasceu em 1889 de uma rebelião do Exército contra o imperador e, assim, nasceu o republicanismo sem povo. A seguir, vieram os golpes de Estado de 37 e de 1964, este último retardado em uma década pela tragédia do suicídio de Getúlio Vargas.

Nietzcshe pergunta: " Haverá um pessimismo da força?" No Brasil, sem dúvida. Fosse diferente, hoje estaríamos entre as grandes nações do mundo e o país não se veria às voltas contra tantos fatos nagativos: impostos que desafiam a gravidade, juros na estratosfera, criminalidade em alta - uma verdadeira guerra que consome cerca de 65 mil vidas por ano - , isso sem contar com preços altos, excessiva burocracia, deficiências graves na saúde, na educação, no cumprimento da lei. Nada no Brasil, a rigor, funciona bem. Quando funciona, é a excessão, não a regra.

Não precisa ir muito longe para dar de cara com a realidade dos fatos. Basta ver quantas cabeças coroadas estão na cadeia - em particular do universo bilionário das empreiteiras - e quantas personalidades do mundo dos negócios e da política estão envolvidas pela avalanche de delações premiadas. O país, essa é a verdade apodreceu. Ou está apodrecendo em plena rua, assediado que é pelo espírito do tempo que envolve duas correntes: aqueles que se deixaram corromper e terão de pagar; e aqueles que lutam contra a corrupção e se deparam com uma estrutura movida à propina. Em bom português, como sobrevirá a economia e a política sem o combustível da propina?

Vem sendo assim há séculos. O drama é que depois do golpe de 1964 institucionalizou-se um fenômeno perverso: o acertar das coisas por meios heterodoxos. Criou-se uma superestura que faria Marx ficar arrepiado. Não se busca mais apenas a mais valia, mas a supermaisvalia. O cidadão foi esquecido, a coisa pública virou coisa privada por inteiro, a verdade virou a mentirada do dia dia, institucionalizou-se a antropofagia generalizada. Será que caminhamos para a barbárie? Ninguém sabe. O que fica claro é que o governo petista leu errado a realidade. 
Não se deu conta que o país estava apodrecendo por dentro e que não poderia querer derrubar o czar - leia-se o capitalismo, em termos amplos - e, ao mesmo tempo, frequentar as festas nos jardins do czar, quero dizer, viver os encantos de uma burguesia excludente e, simultaneamente, combatê-los. Essa contradição liquidou com o PT. 

De outro lado, grassa a ilusão de que o impeachement de Dilma Rousseff é uma panaceia. Que, de repente, ela saia do poder e tudo amanheça. no melhor dos mundos no dia seguinte. Não será assim. O Brasil sempre desmoralizou a democracia com seus golpes de Estado, suas manobras ilegítimas, com o temor dos fortes de enfrentar suas fraquezas, a exemplo do escravismo, da exclusão social, do anticomunismo visceral, do jeitinho para ultrapassar a lei ou simplesmente ignorar a sociedade. 
Hoje, estamos vivendo os muitos impasses do acúmulo de pequenas coisas - a tese na raiz é de Leibniz - e não há mágica para superá-la. Será preciso fazer as coisas certas, e entender que as dificuldades são próprias da democracia e valorizam esse singular regime de poder. Viver a democracia é algo muito maior do que conhecê-la apenas de ouvir falar ou dos livros. Não adianta querer fugir. 
Encarar a realpolitik é fazer aquilo que não queremos fazer. Mas não há alternativa: precisamos fazer o que tem que ser feito. Refazer uma cultura exige tempo, exige processo, exige visão. Enquanto isso, a felicidade poderá ser individual; a felicidade coletiva ficará em suspenso. Até voltarmos a ser feliz, há algo que todos precisam aprender: a ética tornou-se um imperativo categórico. Sem ética, não haverá um Brasil de verdade e a felicidade não passará de ilusão. Não adianta samba, carnaval ou futebol. Como venenos, os problemas do cotidiano a infelicidade estarão em mútua dependência. E a felicidade será adiada. Até quando? Cabe à sociedade responder. 

Francisco Viana é Jornalista e mestre em Filosofia Política

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