> Audiências coletivas buscam resgatar vidas

Aos 13 anos de idade o garoto franzino e de muitos amigos, M.C.N., experimentou, sob a influência dos “colegas”, um cigarro de maconha. O primeiro “trago” foi a porta de entrada para outras drogas, cada vez mais pesadas, até que a dependência química tomou conta da vida de M., que hoje, aos 27 anos, luta para deixar o mundo obscuro e solitário das drogas.

Ao longo destes 14 anos ele conheceu, por inúmeras vezes, os extremos da vida. Momentos de pura euforia, provocados pelas drogas, e momentos longos de ódio, raiva, desespero, tristeza, dor, revolta e abandono.

Junto com as drogas M. procurou emprego, casou e teve duas filhas, mas a cada cigarro fumado, o castelo de areia onde ele edificou sua vida caia, até o momento em que ele perdeu tudo e todos.

“Fui demitido do trabalho, porque ficava fumado demais e perdia a hora de ir trabalhar. Minha mulher cansou e me largou, hoje nem chego perto das minhas filhas. Perdi tudo. A única pessoa que até hoje não me abandonou foi minha mãe, mas sei que uma hora, se eu não mudar, até ela vai se cansar”, afirma.

O relato de M.C.N. foi dado na manhã desta terça-feira (5 de abril), no Juizado Especial Criminal Unificado de Cuiabá (Jecrim), durante uma audiência coletiva realizada com aproximadamente 200 usuários de drogas (lícitas e ilícitas). As audiências têm o objetivo de oferecer várias formas de tratamentos, não apenas para os usuários, mas também para seus familiares, por meio de diversos parceiros que compõem a rede que contribui para o trabalho de recuperação de dependentes químicos na Capital.

Com uma sacola de plástico nas mãos, contendo escova de dentes e creme dental, M. aguardava o momento de ir para o Ciaps Adauto Botelho Unidade III, onde ficará internado por um período de 30 a 60 dias para desintoxicação e recuperação.

“Eu vim sozinho buscar ajuda. Eu já fiquei internado uma vez, por 25 dias, sai bem, mas depois tive uma recaída e voltei a usar pasta-base. No começo eu tinha a ilusão que quando eu quisesse eu parava de usar, mas hoje eu sei que isso não é possível, por isso eu vim procurar ajuda. Sofro muito por ficar longe das minhas filhas, mas eu também não quero que elas me vejam drogado, não sou um bom exemplo para elas, por isso preciso me tratar”.

Sem emprego e abandonado pela esposa e amigos, M. mora com a mãe, “a única pessoa que ainda não desistiu de mim. Mas se eu não parar com essa vida, ela também vai desistir. Eu quero trabalhar, dar estudo para as minhas filhas, uma vida melhor”, conta M., que para manter o vício faz pequenos bicos. O dinheiro que ganha ele compra pasta-base de cocaína.

Em meio a tantos rostos transtornados, olhares perdidos e consciências alteradas, espalhados pelos corredores do Jecrim de Cuiabá, no primeiro andar do prédio uma figura discreta, porém, com um sorriso amistoso no rosto, espera para atender os dependentes de álcool no grupo dos Alcoólicos Anônimos (AA), na unidade que funciona dentro do Juizado Especial.

Usuário de álcool durante três décadas, Carvalho, como prefere ser chamado, hoje está com 57 anos e usa sua história de vida para tentar ajudar outros, que, assim como ele, chegaram ao fundo do poço. Seu primeiro contato com a bebida foi aos 12 anos de idade. O menino tímido, nervoso e de poucos amigos buscou no álcool a “coragem” para enfrentar seus medos e obstáculos.

“Quando eu bebia tinha coragem para tudo. Perdia a timidez, ficava corajoso, cantava, pulava e dançava. Nunca fiz uma hora de aula em autoescola e aprendi a dirigir bêbado. Tudo o que eu fazia era assim, tinha que beber, mas sempre com aquela velha e falsa ideia de que eu iria parar de beber no momento em que eu quisesse. E assim fui seguindo a vida. Arrumei bons empregos, casei, tive dois filhos e continuei bebendo e cada vez mais e mais”.

O homem encontrou coragem e alegria na bebida, porém, aos poucos, perdeu a família, os amigos, os empregos. “Minha esposa era uma pessoa maravilhosa, mas um dia ela cansou de mim. Eu lembro-me do meu filho, na época com cinco anos, perguntando por que eu bebia. Eu não sabia responder. Assim era a minha vida. Um dia meu pai disse que não era mais para eu ir a casa dele, porque eu o envergonhava. Aquilo foi um soco no meu estômago. Eu queria abrir um buraco e cair morto, aliás, eu não via mais sentido para viver. Eu gastei todas as minhas reservas, até chegar ao fundo do fundo do poço, porque 99% dos alcoólatras são assim, só param quando chegam ao fundo do poço”.

Entre copos e garrafas, a vida de Carvalho terminou na sarjeta. “Fui parar nas ruas. Fui preso três vezes e internado outras três. Perdi tudo, principalmente minha dignidade. Só a minha mãe que não me abandonou. Minha vida foi resgatada quando um amigo me levou para conhecer o AA e lá eu descobri que eu não era um vagabundo, mas sim um doente. Eu passei a entender que alcoolismo é uma doença que atinge o físico, o mental e o espiritual da pessoa. Eu estava doente em todos os sentidos”.

Desta primeira reunião até hoje já se passaram 20 anos. “É um dia de cada vez. Eu continuo no AA, porque assim como eu venci o álcool outros também podem fazer o mesmo, por isso eu estou aqui”, conta Carvalho, que não consegue conter a emoção ao dizer que reconquistou sua família, seus filhos e hoje tem o prazer de conviver com seus cinco netos. “Minha mãe, que nunca desistiu de mim, antes de morrer pôde ter a felicidade de me ver recuperado, longe do vício. Pude dar essa felicidade a ela, pude viver isso, porque perdi três irmãos para o álcool e sei o quanto ela sofreu”.

Audiências – As audiências coletivas são rotina no Jecrim de Cuiabá, já que elas acontecem todos os meses. Assim que chegam ao Juizado os intimados são chamados um a um. Logo após, todos são encaminhados para uma sala onde é proferida uma palestra com profissionais da área da saúde e adictos, que contam um pouco das suas experiências, dos caminhos das drogas e das suas consequências.

Em seguida todos são encaminhados para atendimento com psicólogos e equipe multidisciplinar do juizado para a realização da chamada anamnese, uma entrevista que tem a intenção de ser um ponto inicial no diagnóstico de uma doença ou patologia. A partir daí é feito encaminhamento para grupos de autoajuda ou internação. Cada caso é analisado individualmente.

“O objetivo destas audiências é levar conscientização a estas pessoas, oferecer a elas as várias formas de tratamento que existem, não só para o dependente, mas para a família também, porque a família acaba adoecendo junto com o dependente. Aqui nós temos diversos parceiros que compõem a rede e que podem ajudar na recuperação destas pessoas. Temos grupos de autoajuda, como os narcóticos anônimos, alcoólicos anônimos, amor exigente, além do Caps Álcool e Drogas, onde fazemos as internações. Ou seja, nós mostramos os caminhos da recuperação, mas depende de cada pessoa seguir ou não”, explica o juiz coordenador do Jecrim, Mário Roberto Kono de Oliveira.

Ele destaca a importância dos grupos de apoio, que na maioria das vezes é formado por pessoas que já passaram pela mesma situação, viveram os mesmos dramas e sofrimentos. “Estas pessoas conhecem muito mais do que qualquer um de nós que não passamos por isso, elas têm o mesmo linguajar, os mesmos medos, angústias e sabem compreender melhor o outro, além de apontar as alternativas de como sair deste submundo das drogas”.

Leia mais sobre o assunto:

Dependentes químicos participam de audiência
http://www.tjmt.jus.br/noticias/41598#.VwQbiBe2Kvc

Dependentes químicos participam de audiência
http://www.tjmt.jus.br/noticias/40061#.VwQiYBe2Kvd

Janã Pinheiro/Tony Ribeiro

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